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Orgulho além de um Milagre
Nessa
obra de ficção, que envolve mistério, orgulho e milagre, o personagem principal, o judeu Ioseph,
narra como viveu na sua adolescência momentos de encanto, ao presenciar
alguns dos notáveis milagres realizados por Jesus Cristo. Ele até tomou
parte de um deles. Mas, do mesmo modo, as situações de profunda tristeza
e desgosto, como a da morte por apedrejamento do seu melhor amigo. A história religiosa do povo hebreu é envolvente assim como a sua cultura social rica em ensinamentos. Aqui, as principais festas e costumes judaicos são retratados fielmente, inclusive utilizando-se de vernáculos em hebraico, aramaico e grego, próprios da região. Um completo glossário, ao final de cada capítulo, ajuda o leitor a entender o seu significado. |
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(...) As lágrimas escorriam por entre as rugas sulcadas de um rosto esculpido pelos acasos da vida. Percorriam os lábios emudecidos e trêmulos daquele ancião, já sem viço, e caíam calidamente no piso de cobalto cristalizado. Ioseph, que tinha desfrutado além de um centenário de vida, pressentiu que a sua hora finalmente havia chegado. Arqueado pela fraqueza naquele pequeno banco de madeira, levantou sua cabeça sôfrega, apoiada pelas mãos no queixo, e sussurrou que o levassem para a cama – o leito da última morada. Rodeado pelos descendentes remanescentes, somente netos e bisnetos, nenhum deles ousava interromper aquele silêncio centurial, guardado no mais absoluto segredo de alma, geração após geração. Antes do suspiro final, Ioseph em tempo nenhum imaginou que precisaria revelar o seu passado imperdoável de orgulho próprio para encontrar a paz interior e o perdão de si mesmo. Teimosamente ele tinha optado por ficar emudecido durante décadas... Agora ele parecia resmungar com o invisível – talvez o anjo da morte que não se afastava do seu lado à espera da confidência final. Uma ousada bisneta desafiou o vivo e morto Ioseph a contar a história segredada a sete chaves até então. Sem mais escape, o soberbo longevo finalmente expôs minuciosamente seu enigma. (...) Mais à frente esperava a kalá com a face encoberta por um véu solene como forma de depositar confiança ilimitada em seu futuro esposo. Ele aproximou-se dela, descobriu-a afetuosamente com as mãos, conferiu-a com os olhos e, após um maroto sorriso, fez o véu retornar a posição de origem. (...) De repente, vi alguns serviçais enchendo uns potes de pedra com água, no total de seis disponíveis, com capacidade para mais de uma eifa cada. Aí, por curiosidade, perguntei a um deles se haveria algum ritual de purificação. Ele também desconhecia a razão daquilo; apenas cumpria a ordem vinda do estranho. Não arredamos pé do local. No instante seguinte, após todos os vasilhames estarem repletos de água limpa, o mandante pediu que tirassem de um deles uma meia-taça do líquido recém colocado e a fizesse chegar ao mestre-de-cerimônias para degustação. Não acreditamos no que vimos: toda aquela água incolor estava agora avermelhada por completo! Corremos indiscretamente atrás do serviçal incumbido daquela tarefa e ficamos de olho no provador. (...) Surgido do nada, o indesejado passou a ser realidade. Meus olhos quiseram descrer que a pequena, mas crescente, claridade à frente fosse o que fosse. Comecei a assobiar freneticamente e a bater na porta. Agora, a menos de 50 metros, o agrupamento de soldados rhomaios, portando archotes acesos para alumiar o trilho, veio a passos firmes na minha direção. Os zelotas saíram a toda pressa pela parte detrás e debandaram em fuga desordenada pela escuridão da noite. (...) Passei perto deles e senti um forte odor malcheiroso, de urina e suor misturados, de quem ensebava o local há anos. Em alguns deles se via um olhar de esperança; no restante, nem tanto. Cabisbaixos, talvez estivessem ali por falta de qualquer outra opção de vida. Contadas pessoas sãs trafegavam naquela redondeza, visto que os pedidos queixumeiros dos desprezados ecoavam fortemente na área. É que eles necessitavam de alguém para ajudá-los a descer no reservatório logo que o ser celestial agitasse as águas. Na banda do poente, em uma cena inusitada, um casal de cegos se ajeitava nos degraus. Ela carregava no colo um filho de tenra idade de não mais de dois anos preparando-se para tomar o alimento único do dia: um pouco de matzá e peixe. A mãe tateava a comida com uma das mãos e introduzia acanhadas porções na boca do infante. Os olhinhos dele saltitavam vivos e alegres observando tudo em derredor. O pai parecia não se incomodar com nada daquilo; isento, devorou a sua porção em ligeiras abocanhadas. Decerto, o inocente fruto cresceria ali mesmo incorporando a situação patética dos genitores deficientes visuais, e finalmente os conduziria pelas próprias mãos às águas remexidas do poço para o tão sonhado alvo de todas as atenções. (...) De olhar fito no alvo, rumei ao desejado encontro para realçar todo o meu apreço. Ninguém entendeu aquele abraço imprevisto de um filho depauperado pelo cansaço e pasmado para dizer o que quer que fosse. Com carinho paternal ele me acolheu em seus braços. Nesse momento dissipei as nuvens tenebrosas dos nefastos pensamentos. Bendito alívio! (...) Seria possível amar um inimigo? Lembrei-me repentinamente do lugar da habitação dos soldados rhomaios com suas famílias. Uma muralha invisível, erguida por pedras de ódio, delimitava as duas comunidades. Os de lá não se davam bem com os de cá e vice-versa. Até que um dos garotos rhomaios quis por um fim às hostilidades, fazendo amizade com Stephanos, mas nós éramos sectários demais para apoiá-lo nesse nobre intento. O meu inimigo, assim como o do meu pai, eram os rhomaios subjugadores. Nós poderíamos amá-los como afirmou o líder? (...) Até um culto à serpente meu tio patrocinou, em conluio com alguns kohanim interesseiros. Aliás, deveras concorrido! Centenas de sectários shomronim se ajuntavam, no início de cada semana, e saíam em procissão pelas vielas de Shomaron carregando uma imagem de pedra pagã em seu feitio, envolta com muitas serpentes vivas, todas enroladas em tipo de amarras, umas sobre as outras. Pura crendice mórbida! (...) Eu não conseguia chegar perto dele, nem tampouco tirá-lo do tumulto que se transformou em audiência prejudicial. O seu breve julgamento foi uma farsa. O Kohen desempenhou papel duplo de juiz e advogado de acusação ao mesmo tempo na sentença impiedosa. Às rápidas, a trupe de sequazes arrastou meu amigo para fora da sunagoge, e dos muros da cidade, ao local dos apedrejamentos. (...) Pedras de todos os tamanhos zuniam no ar na direção da vítima inofensiva. Os meus gritos de “Parem! Parem!” perdiam o rumo também dentro do labirinto do meu íntimo. Já não se podia fazer mais nada: um corpo envolto em pedras jazia inerte na poeira molhada por sangue. (...) Existia uma vasta rede de espiões infiltrados em toda a parte, desde Yerushalaim até as províncias mais afastadas, com o objetivo de, ardilosa e secretamente, delatar os infratores, espoliar os seus bens materiais e expô-los ao desprezo. Bastava uma mera suspeita ou um testemunho falso. (...) Os reclusos em calabouços morreram devido aos maus-tratos: cabelos e barbas tirados à força com tenazes sem corte; fel e vinagre para os sedentos por água; e açoites utilizando-se de instrumentos com esferas de chumbo nas extremidades. Até mesmo feras selvagens foram aproveitadas para a devora dos nazoraios. Outros tantos faleceram crucificados no sion, ornados com coroas de espinhos, numa repetição tola da morte de Iesous. Uma carnificina sem precedentes! Os cadáveres arrastados com ganchos foram jogados aos montões em valas largas sob o grito de saudações “Ave, Kaisar!”. (...) De agora em diante ele sabia sobre o milagre maior: o auto perdão. As ondas do amor original tinham apagado todos os rastros deixados pelo orgulho, ressentimentos e culpas da vida passada. As suas feições mudaram visivelmente. Então, estava na fase do descanso. Com um sorriso discreto olhou para o lado parecendo se direcionar ao mesmo anjo, como a lhe dizer: “Estou pronto para me encontrar com Jehová”. |
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